Nunca houve tanta compra e venda entre grandes empresas no Brasil. Depois de bater recorde no volume de fusões e aquisições no primeiro trimestre de 2012, o país vive, desde o início desta semana, um verdadeiro tsunami desse tipo de transação. A razão para isso? As empresas adiantaram o processo antes das mudanças das regras do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão regulador que fiscaliza as fusões e aquisições no país.
Na terça-feira, entrou em vigor um novo modelo para a decisão sobre essas operações. A partir de agora, as aquisições serão efetivadas somente depois de julgadas pelo conselho, e não assim que o negócio seja anunciado, como ocorria antes.
Com o aumento do rigor do Cade, que espera reduzir em 40% os processos analisados, o empresariado resolveu correr contra o tempo. Entre domingo e segunda, em torno de 30 empresas brasileiras e estrangeiras com negócios no país movimentaram mais de R$ 10 bilhões, em cerca de 20 operações de fusão e aquisição.
O volume dos negócios foi tão grande que o Cade resolveu aplicar a nova regra com mais rigor. Como a lei anterior previa 15 dias úteis para que o Conselho fosse informado sobre uma determinada operação, inicialmente o novo presidente do órgão, Vinícius Carvalho, disse que poderiam ser aceitos na lei antiga negócios notificados até 19 de junho, mesmo no caso de as empresas não terem ainda assinado o documento.
Mas, anteontem, os conselheiros do Cade se reuniram e voltaram atrás, por entenderem que isso contrariaria a própria lei, que conta o prazo apenas a partir da assinatura de algum acordo. Logo, somente as fusões e aquisições que tiverem sido fechadas até a última segunda serão aceitas pelos moldes da lei antiga.
Operações
Uma das operações mais relevantes nesta semana foi registrada no setor do transporte aéreo. As empresas Azul e Trip confirmaram, na segunda-feira, que se fundiram, formando a holding Azul Trip S.A., que agora passa a ser dona de 14% do mercado doméstico, líder em número de destinos nacionais e com previsão de receita de R$ 4,2 bilhões para 2012.
No mesmo dia, a escocesa Diageo, detentora da marca de uísque Johnnie Walker, anunciou a compra da cachaça brasileira Ypióca por R$ 900 milhões. O grupo escocês assumiu o comando da divisão de bebidas alcoólicas da empresa. A Diageo é líder mundial no segmento de bebidas alcoólicas premium e a Ypióca tem um portfólio de mais de 10 títulos líderes no Brasil em cachaças premium.
No setor alimentício, o fundo de investimentos GP Investments anunciou que vendeu a FC Holdings, empresa dona da rede de churrascarias Fogo de Chão, por US$ 400 milhões (R$ 800 milhões). O novo dono da rede é o fundo de investimentos americano Thomas H Lee Partners. A operação deverá ser concluída no terceiro trimestre. Fundada em 1979, a Fogo de Chão tem 18 restaurantes nos Estados Unidos e 7 no Brasil, incluindo um em Salvador, no Rio Vermelho.
No setor do varejo, o banco BTG Pactual, por meio do BTG Pactual Participations, anunciou aquisição de fatia de 40% da Leader Participações, holding de vestuário e produtos de cama, mesa e banho, numa operação que chega a
R$ 665 milhões. No ramo alimentício, a Cosan anunciou a venda do seu negócio no varejo de alimentos para a Camil, empresa líder nos segmentos de arroz e pescados no Brasil. Dona das marcas de açúcar União e Da Barra, a Cosan, também líder no segmento em que atua, receberá R$ 345 milhões em dinheiro da Camil.
A Cosan também sai da negociação com uma participação de 11,72% na Camil.
tendência Apesar do rigor maior nas novas regras do Cade, o aumento das fusões e aquisições no país é uma tendência. Segundo especialistas, o aumento das empresas que se capitalizaram no mercado de ações, aliado ao bom momento econômico do país, colabora para o crescimento dessas operações.
Em 2011, foram 817 negócios realizados, um recorde histórico, segundo estudo da KPMG. No primeiro trimestre de 2012, 204 negócios foram realizados, também recorde para o período. “Fatores como o crescimento das classes C e D e a perspectiva de investimentos em infraestrutura com Copa do Mundo têm aumentado o interesse de investidores estrangeiros”, explica o sócio-líder da KPMG no Brasil, Luis Motta.
Já o professor da Trevisan Escola de Negócios Olavo Henrique Furtado explica a diferença entre fusão e aquisição. “Uma fusão ocorre quando duas empresas A e B deixam de existir e abrem a empresa C”. Foi o caso da fusão entre
os bancos Itaú e Unibanco, formando o Itaú Unibanco, em 2008. Quando, numa fusão, as empresas A e B formam a empresa C, mas continuam existindo, essa operação é denominada joint venture. Esse é o caso da fusão entre a Trip e
a Azul.
“A aquisição é simples: a empresa A compra parte da B, ou sua totalidade”.